Antigamente a tragédia e a tristeza me inspiravam.
Hoje estou arranhando as paredes deste poço no qual não vejo o fundo, tentando impedir que eu deslize até seu fim desconhecido. E continuo deslizando, caindo, derrapando neste túnel verticalizado que acredito ser um tipo de ponte para o inferno. Agarro-me em qualquer fresta arrancando minhas unhas que não suportam o peso do corpo.
Ouvi dizer que a única saída para o fundo do poço é por cima. Faz sentido.
É irônico – como muitas coisas em minha vida – mas o fundo do poço tem grande potencial em ser uma fonte inesgotável de filosofia.
Muitas coisas são encontradas no chão gelado desse buraco onde muitos caem e poucos saem. Nesta escuridão densa seus olhos se adéquam e passam a enxergar detalhes outrora despercebidos, alguns conseguem inclusive enxergar esperança.
Outro detalhe importante é que toda pessoa – que não seja um completo acéfalo – quando exilada e confinada em seus pensamentos, vai em algum momento rever toda a sua vida, ou pelo menos as partes mais importantes.
Nessas horas alguns homens – principalmente os solitários - são tomados de desespero, constatando-se de que não virá socorro já que não há ninguém procurando por eles. Outros se enchem de tranqüilidade e esperança, pois estão em paz de espírito, e têm consciência de terem feito, apesar de todas as dificuldades, a coisa certa no decorrer de suas vidas. Alguns se enchem de tristeza diante da consternação de uma vida apática, sem valores ou experiências, e desistem, lamentavelmente, de continuar tentando subir pelas paredes desse poço enorme.
Mas sempre existem outros. Ah! Os outros.
Os outros lutam. Perdem as unhas escalando. Já vi alguns perdendo até uns dentes nessa jornada. Muitos deles saem mais fortes do que quando caíram. Mais leves. Mais resistentes. E, principalmente, mais sábios. Fato incômodo, porém real, é que sempre nos espelhamos nos outros.
O triste é ver que alguns se esforçam tanto em sair, e quando já conseguem sentir o ar da vitória adentrando suas narinas, vem um crápula e os derruba antes que cheguem à superfície. É difícil acreditar que existam pessoas ruins a esse ponto, mas existem. Como existem. Aos montes. Na verdade, o mundo está abarrotado deste tipo de gente medíocre. Triste, porém verdade.
Eu já estive em poços assim. Esse não é o primeiro, e infelizmente – ou felizmente, não sei ao certo – não será o último poço de merda em que caio. Estou de fato preocupado com a altura das paredes que terei de subir, afinal, estou caindo até agora e não há nem sinal do chão.
Será uma queda linda aos olhos de meus inimigos e de todos aqueles que esperaram anos para me ver cair. Um baque surdo de um corpo semimorto, que golpeia o chão do “poço quase sem fundo”.
Depois da queda, você perde o ar, e tenta inspirar tudo que seus pulmões expeliram com o impacto. O corpo dói. Você ergue a cabeça e vê que a luz ao fim do túnel é o próprio sol que mal consegue ver nascer, ou, dependendo da perspectiva e de do seu azar, pode ser só um trem de carga vindo em sua direção.
Então você dá os primeiros passos e caminha em círculos. Talvez alguns tenham tido a idéia de gritar por socorro e aproveitar o eco do poço sem fim. Mas as vezes o eco morre no caminho e não chega a nenhum ouvido.
Sem energia, sem voz. É horrível esforçar a garganta para rugir um pedido de ajuda, e perceber que não há mais voz nenhuma em seu corpo. Desesperador não sentir os gritos atravessando seu peito. Quem já tentou gritar sem o ar nos pulmões sabe como é.
TUM! Acho que enfim acertei o chão.
Pedras frias gelam minhas costas. Sinto cheiro de terra molhada neste lugar úmido onde me torno um exilado do mundo.
Encontro um pedaço pontiagudo de alguma rocha que se soltou. Uso para entalhar uma frase nas paredes cilíndricas que me confinam.
Deixo minhas palavras gravadas ali, no fundo do poço, esperando que o próximo a cair saiba que alguém se ergueu deste lugar e bastou olhar para cima para enxergar uma saída. E então, como sempre faço, escrevo:
“Eu estive aqui”.



