Rotina Silva
Ele subia as escadas exausto, batalhando para que suas pernas o obedecessem. Cada degrau que conseguia subir o elevavam a uma nova vitória ao fim daquele dia.
A pele e os cabelos oleosos o deixavam repugnado consigo próprio, e o faziam desejar cada vez mais seu chuveiro e sua cama. Apoiou-se no corrimão e respirou fundo, olhou para última escadaria que precisava subir para chegar a seu humilde apartamento.
Ao chegar à porta soltou um suspiro de alívio, enquanto revirava o bolso a procura das chaves. Abriu-a lentamente, desfrutando o momento em que chegara ao seu santuário de repouso.
Acendeu as luzes e vislumbrou seu solo sagrado, as paredes brancas esverdeadas pelo mofo, os estofados velhos e empoeirados e as magníficas sobras de comida cuidadosamente abandonadas em lugares estratégicos dos quais ele nunca se lembrava. Ele já havia aprendido a conviver com o cheiro de comida podre que exalava de seu templo, e esse odor já estava se tornando tão sagrado quanto todo o resto. Seu ventilador era praticamente um gerador de poeira e ele pretendia limpar no final de semana que nunca chegava, até lá ele usaria no estado em que se encontrava, contribuindo assim para sua alergia irritante.
Afundou o corpo no sofá velho e rasgado, de onde saltavam espumas amarelas, e ligou sua televisão barata, na esperança de que houvesse algo diferente ou no mínimo interessante na programação. Novelas. Ele odiava novelas. Sentou-se e lentamente desabotoou a camisa. Em seguida a cheirou esperando saber se haveria como ele usar mais uma vez antes de mandar lavar. Não demorou para que descobrisse que já estava impregnada com cheiro de suor e cigarro.
Olhou para o relógio de ponteiro grudado na parede, um que ele havia ganhando de brinde numa farmácia, e calculou quanto tempo ele levaria debaixo do chuveiro. Depois pensou no que seria mais confortante, seu banho e em seguida sua cama, ou dormir sujo mais uma vez no sofá e aproveitar o máximo do tempo de sono, o banho poderia ser amanhã de manhã antes de ir pro trabalho. Que situação deplorável, nunca pensou que um dia estaria indeciso entre sua higiene e seu descanso.
Movido pelo mínimo de bom senso que ainda possuía foi ao banheiro escovar os dentes. Assustou-se com o que via diante do espelho: um semblante de cansaço marcado com olheiras e enfeitado pela barba por fazer, aspecto esse que ele nunca imaginou que teria. Se ele tivesse que escolher um nome para si próprio, baseando-se no reflexo que via agora, com certeza ele escolheria “Rotina”, ou talvez “Rotina Silva”. Bem brasileiro, extremamente trabalhador, e completamente exausto, assim como muitos “Silvas” e como muitos brasileiros.
Deitou-se imundo na cama, olhando para o teto, pensando em todos os trabalhos da faculdade e o tempo que não teria para fazê-los. Imaginou seus projetos e como nunca iria concluí-los, assim como seus sonhos que ele jamais viria a realizar, tudo em função da disponibilidade que ele não possuía.
Ele não agüentava mais viver essa vida em que empurrava tudo com a barriga e acabava deixando tudo mal feito ou sem fazer. Olhou para o lado e viu ao seu lado na cama a pior coisa que ele podia ver no dia: O vazio. Pior do que viver uma rotina é vivê-la sozinho.
Pegou seu celular para programar o despertador. Olhou a data. “Já estamos em novembro” – pensou ele. O ano passou mais rápido do que nunca, talvez ele não tenha percebido o tempo passando por estar ocupado e distraído com muitas coisas o dia todo e todos os dias. Dias cansados, dias pesados, dias infelizes e solitários. O ano passou voando, mas os dias passaram arrastados.
E então ele dormiu.
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