terça-feira, 11 de janeiro de 2011

F/Ator Social



            “O mundo é só a porra de um palco, onde todos dançam, nem todos ganham por isso e poucos se divertem. Divirta-se.” 

       O mundo é a porra de um palco, cheio de artistas, de palhaços, malabaristas, músicos, contorcionistas e mágicos.
     A música do palco urbano é tocada por sirenes estridentes que sempre precedem a catástrofe anunciando a desgraça e a morte, com o rufar de tambores dentro do peito da população.
    Bombeiros, policiais, ambulâncias. Uma sinfonia urbana do desespero e do culto à tragédia. A música das sirenes é sempre louvando o desespero, sendo raras as vezes em que são tocadas com dignidade para trazer esperança aos que necessitam disso. Não há espaços para romances e comédias nesse palco de teatro improvisado. Aqui o que manda é o drama, o trágico, o suspense e o terror. Raros são os finais felizes.  
        O palco mundano é repleto dos mais distintos artistas, tendo em sua maioria atores que interpretam aquilo que devem, sem sinceridade nenhuma, mas mergulhados e afogados em hipocrisia educada que vem sendo ensinada a todos, todos os dias, durantes o dia todo. É tudo um show de bons costumes e de quem fala bonito. Um espetáculo sem platéia, pois todos estão preocupados com o próprio show onde são sempre as personagens principais. É só um jogo onde se vence quem representa melhor e sabe blefar através de ameaças sem sentido para impor medo ao próximo. “Temam-me porque sou importante, reles mortais. Mas por favor, finjam que me amam quando não estiverem com medo”.
     E diante dessas exigências eu me transformo em artista, que não finge gostar de nada, mas tenta se apaixonar por tudo, me convencendo a todo tempo de uma realidade não existente, mas que facilita minhas interpretações. A sociedade exige isso, a sociedade pede com a maior sinceridade que nós nos apresentemos nesse show de horrores que o mundo é, e assim nós escolhemos se queremos fazer truques de mágica, fazendo desaparecer o bom senso, ou o dinheiro público, mas sempre têm espaço pra serrar nossa assistente de palco ou tirar um coelho morto da cartola.
   Você pode fazer malabarismo com granadas sem pino também, o público adora a possibilidade de uma desgraça ao vivo. Eu diria pra tentar com coquetéis molotov, mas isso é muito cara de universitário intelectual que batalha por ideais, o povo não gosta muito disso.
       É essa fossa infernal de exigências inúteis que chamo de fator social. E é esse fator social hipócrita que nos molda e me transformam nesse ator social, que finge ser feliz, ou que finge ser normal (muito mal por sinal), apenas porque o mundo e as pessoas vestidas de falsa moralidade e conformismo exigem isso, imploram pela nossa hipocrisia. Sinceridade já virou sinônimo de “má educação”. Ou você é hipócrita conformado com o valor sem sentido dos “bons” costumes ou você é mal educado, ou algum tipo de socialista – sendo que são poucos os que sabem o que é socialismo.
      Talvez nos tornemos palhaços que se empenham em arrancar sorrisos e gargalhadas de pessoas que não acham graça em nada e fingem que estão rindo de tudo. Vamos sempre batalhar entre lágrimas de desespero e suor desperdiçado, só para ter a chance de agradar um público que odiamos.  E permanecer sem paixão alguma por aquilo que fazemos, por aquilo que vivemos.  
   Malabaristas em cada sinal de trânsito tentam roubar os olhares dos motoristas indiferentes à vida, que pouco se importam com esses meninos de rua. E assim concluem com toda a experiência que a vida lhes concedeu: “Todas essas crianças vão usar o dinheiro da esmola para comprar drogas, todas, sem exceção. Nenhum deles é artista de verdade, nenhum deles precisa de grana ou comida. São apenas crianças absurdamente ágeis fazendo truques de malabarismo com algumas bolas, ou às vezes cuspindo fogo enquanto se equilibram nas costas do amiguinho que o acompanha a cada esmola. Não precisam comer. Não precisam se vestir. Não precisam viver.”
     A porra do mundo é só um palco, que não tem muito espaço para verdadeiros artistas, pessoas que sabem o valor da alma e dos sonhos e a real beleza da tragédia. E nesse mundo você escolhe como quer entreter a sociedade se humilhando e fazendo aquilo que nunca quis. Você pode ser um mágico que some com as coisas, pode ser um palhaço sem graça, pode ser o músico que toca as tão hediondas sirenes, até se você for uma aberração vai ter um espaço garantido, talvez como entretenimento das pessoas que pouco se importam com sua vida e seus problemas.
     Eu poderia escolher ser um contador de histórias cheias de fatos fictícios ou de ficções reais, ou então um mágico fazendo desaparecer a hipocrisia e a tristeza. Talvez até ser um dançarino rebolando em troca de dinheiro e sexo, sempre no ritmo que o mundo escolhe, nunca sabendo quais os próximos passos desordenados dessa dança vil. Mas desisti da idéia, decidi não me humilhar assim, mesmo porque, independente de nossa escolha, seja dançarino ou não, nesse palco todo mundo dança, nem todos ganham por isso, e poucos se divertem. Divirta-se.



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