domingo, 26 de setembro de 2010

Sweet Poison

"A todos trato muito bem
sou cordial, educada, quase sensata
mas nada me dá mais prazer
do que ser persona non grata
expulsa do paraíso
uma mulher sem juízo, que não se comove com nada
cruel e refinada
que não merece ir pro céu, uma vilã de novela
mas bela, e até mesmo culta
estranha, com tantos amigos
e amada, bem vestida e respeitada
aqui entre nós
melhor que ser boazinha é não poder ser imitada."
 
(Venom Girl) 

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Viva o serviço público

"Tudo aqui é uma ficção verdadeira"

Escrevo agora entre os berros da coordenadora do colégio público, o qual me colocaram como secretário.
O trabalho é ótimo, basta ficar sentado aqui na frente do computador esperando aparecer alguém pra atender. E finalmente descobri como o Homer Simpson se sente no trabalho dele.
O bom de escrever é que sempre parece que você está trabalhando. Se alguém vem aqui me perguntar se estou ocupado eu posso franzir o cenho, manter um semblante sério como se estivesse compenetrado com o processo mais importante do mundo, e dizer: "Sim. Mas diga."
Todos aqui têm a voz rouca de tanto gritar, e chega um momento que até quando pedem algum favor soa como um esporro. Uma gentileza grossa.
A maioria das senhoras que vejo aqui, têm um semblante tão acabado e exausto que vez ou outra me lembram um buldogue em depressão. Sobrancelhas caídas, olhos fundos, respiração pausada, dividida em suspiros de cansaço.
Espaço para a criatividade aqui, não existe. E obviamente, não há espaço pra mim.
Interessante como o gorverno te paga pra emburrecer, uma mixaria, diga-se de passagem. Não falo nem tanto por mim, mas pelos professores ou outros profissionais que tenham que lidar com as crianças. Não vêm incluso nos termos do edital "aceitar desaforo" e "lidar com tragédias cotidianas" entre as qualificações dos futuros efetivos.
E me pergunto como as crianças daqui reagem à vida, pois a maioria delas já presenciou um tiroteio(mais de uma vez), ou viu ao vivo um cadáver vítima de violência. Há grandes chances também, de já terem visto um defunto nas mesmas condições trágicas e fúnebres, de algum parente ou conhecido.
E mais triste do que não saber como essas crianças vão reagir à vida, é a lástima da certeza que tenho, quando vejo como elas reagem à morte.

(V.K.)

domingo, 12 de setembro de 2010

Haikai

Entre lágrimas...uma súplica
A vida deixa de ser a dádiva de outrora
Torna-se uma dívida. Uma dúvida.

(Victor Kane)

Inspira... Expira...

            Minhas inspirações expiram.
            Somem, perdem a validade, vão-se em vão.
            Mil idéias que tinha, sumiram sem nem sequer se despedir de mim. Foram-se como prostitutas caras que dão o melhor de si numa noite boêmia e desaparecem sem se preocupar em ser encontradas por você depois.
            Musas pararam de me encantar com seu feitiço. A realidade não me surpreende mais. Desejo sensações intensas que independem de mulheres ou companheiras, mas que podem ser mais bem aproveitadas com alguém que goste de mergulhar na profundidade da vida junto comigo.
           Eu quero a chuva, o pôr do sol, o canto dos pássaros, o som das águas chocando-se contra o casco de um navio. Quero o vento gelado soprando em meu rosto fazendo-o arder de frio. Quero uma cachoeira derramando a natureza em torrentes pesadas sobre mim. Eu quero a música de um violão espanhol fazendo a trilha de uma festa cigana ao redor de uma lareira. Quero a Vida materializada em forma de gente, sugando meus lábios e me abraçando num belo campo verde ao entardecer alaranjado. Quero aquela chama intensa queimando com adrenalina dentro do meu peito, aquele êxtase inexplicável no qual você pensa em soltar um grito de felicidade diante de uma cadeia de montanhas. 
            Eu quero ser livre!

            Porra!

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Tillandsia

Tive o prazer de conhecer a autora deste texto em uma de minhas raras viagens pelo país.

"Sou uma antítese.
Tão expansiva quanto a própria alegria que toma uma criança num dia de domingo no parque ao sabor do vento nos cabelos num balanço...
Tão introspectiva quanto uma noite escura e chuvosa, num quarto abafado, onde apenas raios luminosos de uma tv, estampa o contorno de meu rosto na profunda escuridão...
Com medos e sorrisos...anseios... fervor, furôr...desejo e calor...
Sou pura alma. Sou poesia que não sai. Sou amor que não abstrai. Sou ódio a todo vapor! Sou um despropósito perfeito...
Sou uma menina pacífica. Sou uma mulher sublime. Sou uma fêmea voraz.
Sou tudo em tão pouco mundo. E sou ainda muito mais...muito mais no fundo.
Sou uma criatura divina. Deus me cultivou... Mas, como toda baiana, além de sagrada, sou profana."


(R.C. - Srta Claire)

Quase

Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.
Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.
Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos “Bom dia”, quase que sussurrados.
Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.
Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza.
O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si. Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém,preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.
Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.
Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.


(Sarah Westphal Batista da Silva)