quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Viva o serviço público

"Tudo aqui é uma ficção verdadeira"

Escrevo agora entre os berros da coordenadora do colégio público, o qual me colocaram como secretário.
O trabalho é ótimo, basta ficar sentado aqui na frente do computador esperando aparecer alguém pra atender. E finalmente descobri como o Homer Simpson se sente no trabalho dele.
O bom de escrever é que sempre parece que você está trabalhando. Se alguém vem aqui me perguntar se estou ocupado eu posso franzir o cenho, manter um semblante sério como se estivesse compenetrado com o processo mais importante do mundo, e dizer: "Sim. Mas diga."
Todos aqui têm a voz rouca de tanto gritar, e chega um momento que até quando pedem algum favor soa como um esporro. Uma gentileza grossa.
A maioria das senhoras que vejo aqui, têm um semblante tão acabado e exausto que vez ou outra me lembram um buldogue em depressão. Sobrancelhas caídas, olhos fundos, respiração pausada, dividida em suspiros de cansaço.
Espaço para a criatividade aqui, não existe. E obviamente, não há espaço pra mim.
Interessante como o gorverno te paga pra emburrecer, uma mixaria, diga-se de passagem. Não falo nem tanto por mim, mas pelos professores ou outros profissionais que tenham que lidar com as crianças. Não vêm incluso nos termos do edital "aceitar desaforo" e "lidar com tragédias cotidianas" entre as qualificações dos futuros efetivos.
E me pergunto como as crianças daqui reagem à vida, pois a maioria delas já presenciou um tiroteio(mais de uma vez), ou viu ao vivo um cadáver vítima de violência. Há grandes chances também, de já terem visto um defunto nas mesmas condições trágicas e fúnebres, de algum parente ou conhecido.
E mais triste do que não saber como essas crianças vão reagir à vida, é a lástima da certeza que tenho, quando vejo como elas reagem à morte.

(V.K.)

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