quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Drug

      Quatro paredes se encontram em ângulos desconfortáveis, formando uma autêntica caixa de Pandora, lacradas pelo teto e o chão. Uma caixa que guarda tudo que o mundo teme. Seja lá o que está aprisionado ali, deveria ser mantido em cativeiro para sempre.
      O ar acaba dentro dela. O calor sufoca. A atmosfera abafada pesa sobre seu prisioneiro solitário. Ele não encontra nada dentro de sua cela, além de escrituras talhadas nas paredes, em várias línguas que não conhece.
       Respira devagar o encarcerado miserável, tentando economizar o pouco oxigênio que entra quente pelas narinas. Ar abafado, morno e incômodo.
     Entre as frestas rústicas e antigas no chão, ele cata cacos de seus dentes. Pequenos estilhaços de porcelana espatifada, brutalmente destruída pelo golpes contra sua face. Ainda há farelos de seu molar em sua língua, e ele sente a textura arenosa com o gosto de ferro, de sangue.
       As gotículas de suor escorrem lentamente pela testa e costas, caminhando como formigas desordenadas. A agonia toma conta de si. Coceiras incontroláveis.
      Sua unha arranha o próprio corpo pegajoso, tentando aliviar as coceiras psicológicas da abstinência. O desgraçado é viciado na pior droga de todas, muito pior que a heroína que conheceu e mais fatal que qualquer vilã que ela pudesse combater. Uma droga tão perigosa que teve de ser capturada e aprisionada para todo o sempre, levando consigo uma fama digna de uma praga cruel.
       Viciou-se na droga da vida. E toda droga em exagero leva ao rumo da morte.
       Ele arranca os próprios cabelos como se suas mãos fossem garras. Sente cada mecha saindo de suas raízes. O silêncio do vazio é tanto que se pode ouvir o barulho das unhas arranhando a própria pele a cada vez que se coça.  O som incômodo dos cabelos arrancados ecoando pelo cárcere no qual foi aprisionado.
       Encontra um dente canino seu, ainda inteiro, no canto da sala, no ângulo da caixa.
       Usa como aparato improvisado para escrever nas paredes, talhando letras irregulares que em algumas horas tornam-se uma palavra. Palavras se juntam formando frases.
       Ele marca sua frase na parede de sua caixa de Pandora e prostra-se de joelhos, golpeando o chão com sua cabeça enquanto suas mãos jazem imóveis ao lado do corpo. Amolecidas, frágeis e exaustas.
       Antes que ele perca a consciência e morra afogado no próprio sangue, ele tenta em vão repetir suas últimas palavras, que jamais foram ditas:
      “Viver mata”.

(Victor Kane) 

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Dream On

"Á primeira vista, ética e política podem assomar como duas coisas incongruentes. Infelizmente, isso leva ao desânimo daqueles que já assistiram a promessas e decepções. Porque costuma haver distância entre o discurso e a prática. E porque assim se perde o essencial.
O que leva um médico a optar pela arte de curar as pessoas? O que leva um advogado ao oficio de lutar pela justiça? O que leva um professor a querer servir de guia a outras pessoas? O que leva um político a optar pela construção da felicidade coletiva?
Essas inquietações não podem abandonar os sonhadores que resolveram converter o sonho em realidade. A perda do sonho leva ao desperdício de talento. A perda do sonho leva ao comodismo e à corrupção; quem não sonha se converte em perigo para si e para a sociedade, porque já não tem mais o que ganhar ou perder." (Gabriel Chalita)

Extraído do livro "Os Dez Mandamentos da Ética" de Gabriel Chalita.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Rotina Silva

Dedicado ao professor que me pediu para que escrevesse essa droga e me motivou ao máximo para que nunca parasse de escrever.

Rotina Silva

Ele subia as escadas exausto, batalhando para que suas pernas o obedecessem. Cada degrau que conseguia subir o elevavam a uma nova vitória ao fim daquele dia.
A pele e os cabelos oleosos o deixavam repugnado consigo próprio, e o faziam desejar cada vez mais seu chuveiro e sua cama. Apoiou-se no corrimão e respirou fundo, olhou para última escadaria que precisava subir para chegar a seu humilde apartamento.
Ao chegar à porta soltou um suspiro de alívio, enquanto revirava o bolso a procura das chaves. Abriu-a lentamente, desfrutando o momento em que chegara ao seu santuário de repouso.
Acendeu as luzes e vislumbrou seu solo sagrado, as paredes brancas esverdeadas pelo mofo, os estofados velhos e empoeirados e as magníficas sobras de comida cuidadosamente abandonadas em lugares estratégicos dos quais ele nunca se lembrava. Ele já havia aprendido a conviver com o cheiro de comida podre que exalava de seu templo, e esse odor já estava se tornando tão sagrado quanto todo o resto. Seu ventilador era praticamente um gerador de poeira e ele pretendia limpar no final de semana que nunca chegava, até lá ele usaria no estado em que se encontrava, contribuindo assim para sua alergia irritante.
Afundou o corpo no sofá velho e rasgado, de onde saltavam espumas amarelas, e ligou sua televisão barata, na esperança de que houvesse algo diferente ou no mínimo interessante na programação. Novelas. Ele odiava novelas. Sentou-se e lentamente desabotoou a camisa. Em seguida a cheirou esperando saber se haveria como ele usar mais uma vez antes de mandar lavar. Não demorou para que descobrisse que já estava impregnada com cheiro de suor e cigarro.
Olhou para o relógio de ponteiro grudado na parede, um que ele havia ganhando de brinde numa farmácia, e calculou quanto tempo ele levaria debaixo do chuveiro. Depois pensou no que seria mais confortante, seu banho e em seguida sua cama, ou dormir sujo mais uma vez no sofá e aproveitar o máximo do tempo de sono, o banho poderia ser amanhã de manhã antes de ir pro trabalho. Que situação deplorável, nunca pensou que um dia estaria indeciso entre sua higiene e seu descanso.
Movido pelo mínimo de bom senso que ainda possuía foi ao banheiro escovar os dentes. Assustou-se com o que via diante do espelho: um semblante de cansaço marcado com olheiras e enfeitado pela barba por fazer, aspecto esse que ele nunca imaginou que teria. Se ele tivesse que escolher um nome para si próprio, baseando-se no reflexo que via agora, com certeza ele escolheria “Rotina”, ou talvez “Rotina Silva”. Bem brasileiro, extremamente trabalhador, e completamente exausto, assim como muitos “Silvas” e como muitos brasileiros.
Deitou-se imundo na cama, olhando para o teto, pensando em todos os trabalhos da faculdade e o tempo que não teria para fazê-los. Imaginou seus projetos e como nunca iria concluí-los, assim como seus sonhos que ele jamais viria a realizar, tudo em função da disponibilidade que ele não possuía.
Ele não agüentava mais viver essa vida em que empurrava tudo com a barriga e acabava deixando tudo mal feito ou sem fazer. Olhou para o lado e viu ao seu lado na cama a pior coisa que ele podia ver no dia: O vazio. Pior do que viver uma rotina é vivê-la sozinho.
Pegou seu celular para programar o despertador. Olhou a data. “Já estamos em novembro” – pensou ele. O ano passou mais rápido do que nunca, talvez ele não tenha percebido o tempo passando por estar ocupado e distraído com muitas coisas o dia todo e todos os dias. Dias cansados, dias pesados, dias infelizes e solitários. O ano passou voando, mas os dias passaram arrastados.
E então ele dormiu.