Quatro paredes se encontram em ângulos desconfortáveis, formando uma autêntica caixa de Pandora, lacradas pelo teto e o chão. Uma caixa que guarda tudo que o mundo teme. Seja lá o que está aprisionado ali, deveria ser mantido em cativeiro para sempre.
O ar acaba dentro dela. O calor sufoca. A atmosfera abafada pesa sobre seu prisioneiro solitário. Ele não encontra nada dentro de sua cela, além de escrituras talhadas nas paredes, em várias línguas que não conhece.
Respira devagar o encarcerado miserável, tentando economizar o pouco oxigênio que entra quente pelas narinas. Ar abafado, morno e incômodo.
Entre as frestas rústicas e antigas no chão, ele cata cacos de seus dentes. Pequenos estilhaços de porcelana espatifada, brutalmente destruída pelo golpes contra sua face. Ainda há farelos de seu molar em sua língua, e ele sente a textura arenosa com o gosto de ferro, de sangue.
As gotículas de suor escorrem lentamente pela testa e costas, caminhando como formigas desordenadas. A agonia toma conta de si. Coceiras incontroláveis.
Sua unha arranha o próprio corpo pegajoso, tentando aliviar as coceiras psicológicas da abstinência. O desgraçado é viciado na pior droga de todas, muito pior que a heroína que conheceu e mais fatal que qualquer vilã que ela pudesse combater. Uma droga tão perigosa que teve de ser capturada e aprisionada para todo o sempre, levando consigo uma fama digna de uma praga cruel.
Viciou-se na droga da vida. E toda droga em exagero leva ao rumo da morte.
Ele arranca os próprios cabelos como se suas mãos fossem garras. Sente cada mecha saindo de suas raízes. O silêncio do vazio é tanto que se pode ouvir o barulho das unhas arranhando a própria pele a cada vez que se coça. O som incômodo dos cabelos arrancados ecoando pelo cárcere no qual foi aprisionado.
Encontra um dente canino seu, ainda inteiro, no canto da sala, no ângulo da caixa.
Usa como aparato improvisado para escrever nas paredes, talhando letras irregulares que em algumas horas tornam-se uma palavra. Palavras se juntam formando frases.
Ele marca sua frase na parede de sua caixa de Pandora e prostra-se de joelhos, golpeando o chão com sua cabeça enquanto suas mãos jazem imóveis ao lado do corpo. Amolecidas, frágeis e exaustas.
Antes que ele perca a consciência e morra afogado no próprio sangue, ele tenta em vão repetir suas últimas palavras, que jamais foram ditas:
“Viver mata”.
(Victor Kane)